Como proteger a Cultura?

Por Ricardo Yabrudi

A cultura se modifica sempre. Por mais conservada que ela seja na sua tradição por seus defensores, a tendência natural é que ela se desenvolva, se alterando, mudando sua forma. As mudanças poderão ocorrer através de anos, décadas ou até mesmo séculos e milênios. Todos estes vetores de transformação dependerão de inúmeros fatores, até mesmo de guerras, invasões e colonizações.

A globalização principalmente difundida pela internet muitas vezes é responsável pela mudança do comportamento humano e pode destradicionalizar uma nação. Porém, este fenômeno que alguém pode pensar ser atual do século XX e XXI, não é inteiramente verdadeiro. A globalização talvez tenha essa interpretação pela definição de suas vertentes virtuais, contudo, vista de maneira histórica e ampla, possui exemplos em outras épocas. A expansão da cultura grega iniciada por Alexandre O Grande atingiu inclusive a cultura judaica, considerada fechada com costumes moderados apregoados pelas próprias subdivisões internas do judaísmo. Os Saduceus que participavam ativamente das decisões do sinédrio, junto com os Fariseus, no templo construído por Herodes O Grande, se vestiam como os gregos. Seus costumes básicos vinham do modus vivendi helênico. Pedro, o apóstolo, foi advertido por Paulo de Tarso, que defendia a incircuncisão, para que ele tolerasse o modo de vida dos gentios convertidos ao cristianismo, visto que Pedro vivia como um grego. A Grécia antiga liderada por Alexandre O Grande e subsequentemente por seus generais, globalizou o mundo com esse império, desde a própria Grécia, passando pelo Egito, Palestina e Pérsia. Este era praticamente o mundo antigo que se portou de maneira culturalmente igual por muito tempo carregando a cultura grega como transformadora de suas tradições milenares. O império romano, apesar de seu principal domínio em coletar impostos, deixou um rastro cultural por onde passou. A expansão cultural inglesa do século XIX marcou o mundo, principalmente o Brasil; um grande importador de produtos. A Estação da Luz de São Paulo veio desmontada da Inglaterra; sua estrutura metálica veio trocar a antiga arquitetura colonial portuguesa feita de adobe e pedra itacolomy pelo ferro inglês. A influência americana no princípio século XX não dependeu muito da internet. Hoje em dia, a velocidade de expansão é muito maior, porém, devemos acreditar que a globalização seja um fenômeno mais antigo do que se pensa. Dizer que ela nasceu com a internet é uma falácia.

Alguns pensam que a principal responsável pelo aglutinamento cultural e “unificação” mundial da cultura são as mídias através dos satélites. De certo modo a facilidade em acessar um site de um país pouco conhecido favorece essa crença, todavia, este ato isolado não é responsável pela transformação de todas as culturas. Alguém acessa uma mídia por alguns motivos, um deles é porque “compartilhou” alguma informação em alguma rede social. Um motivo mais preponderante é que aquela influência já venha sendo conduzida por um processo mais lento de deterioração da cultura ou o seu fomento. Um povo que vai se entregando e “esmorecendo” aos costumes de outra cultura terá nessa entrega algumas prerrogativas. Uma delas é pensar que deixar a sua cultura de lado estará se “modernizando”. O pensamento, aliado à filosofia, sempre deixou transparecer que quanto mais “adiantado tecnologicamente” e mais idealista o homem conseguir ser, em maior nível cultural a sua espécie estará. Tribos primitivas sem o uso do fogo para a cocção de alimentos eram consideradas “atrasadas”. Assim que entravam em contato com outros grupos que produziam o fogo com as mãos e utensílios para fazê-lo, logo aderiam à nova tecnologia. Assim é o homem em toda a sua história que pensa que se possuir uma nova tecnologia “avançada” e um idealismo filosófico estará à frente de outras culturas, o que não é uma verdade completa, porém, é apenas uma opção em aderir a determinados costumes. É notório também que em grandes centros urbanos, existem algumas pessoas voltadas para práticas orientais de controle da mente, corpo e espírito, demonstrando nesta atitude que estariam em um “nível” satisfatório de consciência do próprio corpo, espírito e o seu EU. O mundo abandonado, entregue à tecnologia científica deixou o homem órfão de seus instintos filosóficos e espirituais, direcionando o homem para uma cultura, às vezes, laica. A busca pela identidade individual e espiritual trouxe à baila, anseios pela procura de horizontes não tecnológicos como culturas orientais orientadas principalmente para o autocontrole. O homem globalizado perdeu sua identidade por um lado, por outro ganhou pela internet acesso a templos e crenças que nunca teria conhecido a cem anos atrás. Esse ganho através da globalização fortaleceu a espiritualidade, hoje tão necessária pela pressão dos problemas que o materialismo capitalista provoca e que nos fazem esquecer de que o homem é ínfimo em relação aos mistérios espirituais.

A globalização, às vezes também, se “desglobaliza” em certos momentos, pois cria a possibilidade de novos mundos e te reporta através dos sinais de satélite para mundos virtuais inimagináveis e contrários à própria tecnologia que utiliza, negando um mundo virtual e apressado. Alguns se mudam para o campo fundando comunidades como os seguidores de Epicuro na Grécia antiga abandonando todo o arsenal tecnológico virtual disponível do seu tempo para viver uma vida com pouca tecnologia e pura contemplação do mundo real.

A proteção da cultura vem de algumas tomadas de decisões. Por um lado, individual que é a consciência e a liberdade do indivíduo não reativo. Pelo lado coletivo, alguns grupos poderão se formar para enrijecer para defender suas tradições, como formar um exoesqueleto, como uma couraça que existe em certas formas biológicas, formando uma armadura contra intrusões alienígenas culturais. Transformar paraísos naturais em nichos de turismo internacional poderá ser regulamentado por leis de um país. Defesas do mar, das águas internacionais e da atmosfera estão sempre sendo discutidos pelos grupos da comunidade científica criando encontros de líderes para a criação de protocolos e metas para as décadas vindouras. Proteção é para quem quer se proteger, quem não se protege ou é por que não viu o perigo ou não se interessa pelo dano cultural.

Um povo estará fadado às mudanças, ou pela influência direta de uma realidade material, ou pela fala “mansa” de um pensamento filosófico. Nietzsche observou em sua obra crepúsculo dos ídolos, que até em seus dias pairava o pensamento socrático-platônico-aristotélico. Essa filosofia idealista passou por Descartes e Kant, criando no homem uma vida fora desse mundo; o “mundo metafísico idealista”. Com os pés no chão ele propusera um homem consciente não reativo, com pensamento próprio, deixando de lado o legado construído desde Sócrates até os seus dias. Assim deveria ser cuidada a cultura por todos os que desejam o “bem” da tradição em detrimento da “inovação” alternativa da sua própria cultura nacional. A semana de arte moderna de 1922 conseguiu resgatar a identidade cultural brasileira. Foi um acontecimento e um fenômeno de “poucos contra muitos”, (aliás é quase sempre assim). Críticas ferrenhas da imprensa tentaram esmagar o levante cultural, todavia, o Brasil falou mais forte e as paisagens europeias pintadas pela academia tradicional deram lugar as paisagens nordestinas. As composições de estilo europeu foram substituídas pelas composições que lembravam a floresta amazônica, pelo ilustre compositor Villa lobos. Nesta semana de arte moderna de inspiração futurista italiana, pudemos afirmar nosso patriotismo através de influencias que não eram nossas, porém, serviram como antídoto aos estrangeirismos. O contra-ataque usando as armas dos próprios adversários são uma realidade. Após um combate as armas dos opositores são recolhidas e usadas contra eles. Assim é a cultura que deveria aproveitar a internet com sua expansão globalizante e usá-la a favor da “preservação” da tradição da cultura. Deveríamos aprender sempre com a história, pois é ela quem nos ensina e nos previne dos erros que poderemos cometer no futuro.

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