O Abraão surfa na memória do povo preto

Feriado do Dia da Consciência Negra conta com palestra, jongo e eventos culturais

Colocar preto no negro. Com essa premissa a comunidade da Vila do Abraão deu início à segunda edição da Festa da Consciência Humana. O evento, organizado pelo coletivo Plantou Colheu em parceria com o grupo Afro Reggae Homoheyn, com objetivo de comemorar o Dia da Consciência Negra e reivindicar a memória e a cultura do povo preto. E, para começar, o encontro trouxe uma reflexão: modernizar a linguagem e abandonar a palavra negro para falar de pessoas.

Nabby Clifford palestra na Festa da Consciência Humana. (Foto: Giuli Vila)

O responsável de defender esta ideia foi o músico e ativista natural de Gana, Nabby Clifford, que foi também o encarregado de abrir a programação. O africano explicou que “negro” é uma palavra pejorativa que “quer dizer escravo” e remete aos maus tratos sofridos. “Traz consigo uma ofensa, a lembrança de ser atado, arrastado, maltratado”, disse. Clifford, que chegou ao Brasil em 1983, foi batizado como o ‘embaixador do reggae’ no país pelo seu trabalho de divulgação do gênero e nos últimos anos, tem lutado ativamente para tentar mudar o racismo na língua.

“Imagina uma criança que cresce ouvindo quase todo dia palavras da mídia como dia negro, magia negra, câmbio negro, vala negra, mercado negro, peste negra, buraco negro, ovelha negra, fome negra, humor negro, nuvem negra… a criança fica com dúvidas sobre a própria identidade”, afirmou.

O destino quis que fosse precisamente a alguns metros do auditório do INEA, onde Clifford pronunciou sua palestra, local que desembarcaram durante três séculos milhares de escravos. Todos eles vítimas de contrabandistas que continuaram exercendo o tráfico de pessoas na Ilha Grande, mesmo depois do Brasil abolir a escravidão em 1888. De fato, o Dia da Consciência Negra lembra à morte de Zumbi dos Palmares, um líder da resistência quilombola famoso por ter lutado contra a escravidão.

Devido à chuva, o evento continuou na Casa de Cultura com a exposição de artesanatos locais e com uma homenagem ao senhor Clarindo, caiçara pioneiro no turismo pela ilha e um dos símbolos da cultura badjeca. Junto aos últimos trabalhos do Clarindo, que faleceu em novembro, fotógrafos locais também expuseram as suas instantâneas.

A primeira noite terminou com o show Marcelo Rasta e convidados, com a participação do Felipe Silva (Monte Zion). A banda, composta por moradores do Abraão, contou com Marcelo na voz e no violão, Armando Dias na bateria, William Cristianes no teclado, Leandro Santos de Jesus no baixo, e Solemar Jacintho na flauta transversal. Já o segundo dia foi o turno do Jongo Urbano, um projeto do mestre Wagner “Jamaica” que recupera esta expressão cultural afro-brasileira, cujas raízes estão nos escravos bantu trazidos da atual Angola para trabalhar nas lavouras de café e cana-de-açúcar. Foram mais de duas horas de dança, canto e percussão antes prosseguir com as atuações do Swami Raggaman e de Clifford sobre a lenda do reggae. Em seguida, foi inaugurado o palco aberto, que fechou o evento brindando a comunidade a oportunidade de alçar a voz.

Marcelo Rasta e convidados enceraram a noite. (Foto: Giuli Vila)

 

Jongo Urbano. (Foto: Giuli Vila)

 

Foto: Giuli Vila

 

Evento contou com exposição fotográfica. (Foto: Rafael Zanon)

 

 

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